Do consignado ao mercado de capitais: como o Master se tornou o ‘banco das fraudes’
Manifestação em frente à sede do Banco Master na última quinta-feira, 22 (Por Cristiane Barbieri) - foto reprodução - Algumas das principais operações do Banco Master estão sob investigação por suspeitas de irregularidades; procurada, instituição não respondeu a pedido de entrevista.
As investigações em torno do Banco Master vêm mostrando que, aparentemente, grande parte de sua estrutura era baseada em operações irregulares, fraudulentas ou enganosas. A área que era considerada a mais sólida da instituição foi a última a entrar nessa ciranda: o Estadão revelou que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) viu irregularidades em 74% das operações de crédito consignado feitas pelo Banco Master entre 2021 e 2025.
Já estavam na lista de eventuais fraudes praticadas pela instituição os R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios vendidos ao Banco de Brasília (BRB) e uma teia de fundos e ativos inflados para aumentar o patrimônio do banco, em operações com a gestora Reag DTVM, que somam outros R$ 11,5 bilhões, segundo o Banco Central (BC).
Essas operações estão entre as que eram destacadas pelo Master em suas demonstrações financeiras mais recentes publicadas, referentes ao ano de 2024. Apesar de não serem detalhados, mereceram destaque da administração os empréstimos consignados (sobretudo do Credcesta), as operações estruturadas a empresas (como crédito corporativo por meio de fundos) e o crescimento na venda de carteiras de crédito. Procurado, o Master não respondeu a pedido de entrevista até a publicação desta reportagem. A Reag não comentou.
Na prática, todas as operações que estão sob investigação tinham como objetivo aparente tentar mostrar a solidez dos números do banco, para que ele continuasse fazendo negócios. Seja pela captação via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando acima da média do mercado − com a propaganda de venda baseada no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) −, via fundos com suspeita de serem turbinados ou com crédito consignado aparentemente frágil, as investigações indicam que o balanço mostra ativos inflados artificialmente, enquanto os passivos eram bem maiores.
“O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo”, afirmou o dono do banco, Daniel Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal.
Fora das tabelas da demonstração de resultados, na vida real, porém, o banco dificilmente pararia em pé.
“A dinâmica da falência de um banco é sempre igual: a instituição vem bem, obtém renome e credibilidade (que tem a mesma raiz da palavra crédito) e cresce”, diz Paulo Henrique Carnaúba, professor do programa de finanças avançadas do Insper e advogado especialista em fraudes. “A gestão passa a testar o uso do dinheiro dos outros (mais do que o dela) em operações delicadas ou irregulares e, quando dá certo, com a sensação de que continuará impune, aumenta essa prática.”
Até que a bola de neve fica tão grande, que o banco se torna insolvente, ele afirma. “Nessa hora, ou o controlador busca um aporte de capital ou fabrica ativos e tenta obter liquidez de forma agressiva”, diz Carnaúba. “Tudo o que está sendo investigado parecem ser estratégias para criar solidez e liquidez no balanço e esconder um problema maior e anterior.”
As eventuais fraudes, afirma, são um meio para esconder o fim da história: uma conta de ativos e passivos que aponta para uma instituição que não para de pé. “A estratégia geral parece ser criar ou atrair ativos que significam aportes de recursos para evitar a intervenção do BC”, afirma. “Isso nunca deu certo, já que são operações muito complexas e que envolvem muitos interesses... é só a ponta do iceberg.”
O destino dos recursos com suspeita de terem sidos fraudados e desviados, diz, será respondido pelas investigações. “Desde 2023 havia rumores em torno da falta de solidez do Master”, diz Carnaúba. “Se houve demora na ação do BC, isso será investigado, mas que houve grande vontade política para que a intervenção não acontecesse, isso houve.”
De acordo com Luis Miguel Santacreu, analista da agência de classificação de risco Austin Rating, é impossível saber, por meio das informações públicas, quais e quanto das operações do Master eram ou não regulares.
“Apenas o interventor terá acesso a essas informações em profundidade, após a investigação das autoridades competentes”, diz. “Pelo que é público, é possível dizer que o Master tinha uma gestão agressiva em tesouraria e na captação de investimentos, ao mesmo tempo em que investia em ativos ilíquidos (como precatórios e participações em empresas em dificuldades), o que causava um descasamento entre ativos e passivos e riscos maiores do que o recomendado.” (Fonte: Estadão)
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