Bancos aumentam disputa por mercado de benefícios corporativos de R$ 150 bilhões
Com mudanças no Programa de Alimentação do Trabalhador, bancos buscam expandir atuação e fidelizar clientes por meio de cartões de benefícios (Por André Marinho)| Resumo BTG Pactual e C6 Bank ingressam no setor de benefícios corporativos, desafiando gigantes como Alelo e Ticket, após reformas no Programa de Alimentação do Trabalhador. As novas regras, que entram em vigor em 2025, exigem infraestrutura aberta e limitam taxas, favorecendo empresas como Caju e Swile. C6 Bank adquiriu a startup Alymente, enquanto BTG aposta em soluções integradas. A mudança visa ampliar opções para empresas e consumidores, mas levanta questões sobre a competição no mercado de R$ 150 bilhões anuais. |
A entrada de BTG Pactual e C6 Bank no setor de benefícios corporativos simboliza a mudança no perfil de uma indústria historicamente concentrada em Alelo, Pluxee (antiga Sodexo), VR Benefícios e Ticket. Reformas nas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) reduziram as barreiras de entrada e abriram os olhos de novas instituições financeiras para um mercado que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano.
As novas normas proíbem as operadoras de grande porte (com mais de 500 mil clientes) a atuarem nos chamados arranjos de pagamentos fechados. O modelo permitia que as bandeiras fechassem contratos individualmente com cada restaurante ou supermercado para habilitar o uso do cartão no estabelecimento. Era a época em que, para almoçar no bar da esquina, o trabalhador precisava primeiro descobrir se o vale-refeição passava na maquininha do local.
Com a entrada em vigor do Decreto 12.712, de 2025, o cartão benefício deve rodar em uma infraestrutura aberta, unificada e interoperável. Em outras palavras, todos os terminais estão conectados a uma rede aberta que consegue processar diferentes bandeiras. A regulação também estabelece um teto para as taxas cobradas e encurta para 15 dias o prazo para o repasse dos valores aos restaurantes.
As mudanças ajudaram as empresas de benefícios flexíveis, como Caju, Flash e Swile. Elas já operavam com bandeiras abertas (Visa ou Mastercard) e deixam de ter de competir com concorrentes que podiam oferecer descontos e vantagens para convencer as grandes companhias a fechar contrato.
As credenciadoras mais antigas também costumavam firmar parcerias acionárias ou estratégicas com os maiores bancos do País para potencializar a exclusividade de distribuição dos cartões. A Alelo, por exemplo, pertence à Elopar, holding controlada conjuntamente pelo Bradesco e Banco do Brasil. Já o Itaú Unibanco tem uma participação minoritária na Ticket Serviços.
Entenda a briga pela principalidade
Agora, sob o novo modelo, instituições mais novas começam a mirar um produto que fornece uma linha de receita consistente e o potencial para fidelizar o cliente. O nome do jogo é a principalidade — o grau em que as empresas concentram relacionamento em determinado banco. Ao ampliar e expandir a prateleira de serviços, os benefícios corporativos se tornam uma espécie de porta de entrada para depois avançar, por exemplo, para o crédito. É o que o jargão do setor chama de cross-selling.
“Os bancos sempre tiveram uma briga muito grande pela folha salarial das empresas”, explica Doug Storf, CEO e fundador da Swap, uma fintech de banking as a service que permite que empresas criem seus próprios produtos financeiros sob marca própria. “Você ter uma oferta de benefícios atrelada aumenta a proposta de valor desses bancos para competir”, explica.
Na manhã desta quinta-feira, 3, o C6 Bank anunciou a compra da startup de benefícios corporativos Alymente, que atende mais de 100 mil beneficiários de uma base de clientes que inclui Heineken, Nissan, BIC e Pernod Ricard. Criada em 2017, a empresa oferece um cartão multibenefícios com nove categorias, como alimentação, mobilidade e bem-estar. Para as áreas de recursos humanos (RH), a plataforma contém funcionalidades como gestão de premiações, frotas, despesas corporativas e reembolso de funcionários.
O banco, que tem o J.P. Morgan como sócio, já disputa as folhas salariais por meio do apetite forte pelo consignado privado, modalidade de crédito em que as parcelas são descontadas na fonte.
No BTG Pactual, o cartão de benefícios terá bandeira Mastercard e reunirá vale-alimentação e vale-refeição. O banco de investimentos vem expandindo sua atuação no varejo bancário para ir além do público tradicional de alta renda e investidores institucionais. No ano passado, por exemplo, lançou uma maquininha de cartões após comprar a fintech Justa, especializada em soluções de adquirência para pequenas e médias empresas (PME).
Longo prazo
O head de banking do BTG, Bruno Peuker, explica que a aposta da instituição financeira no segmento de benefícios reflete uma visão de longo prazo sobre demanda por soluções integradas que simplifiquem a gestão das empresas. “Essa proposta reúne, em uma única solução, a experiência de um produto digital de benefícios com a amplitude de produtos e serviços financeiros do BTG, gerando valor tanto para as empresas quanto para seus colaboradores”, ressalta.
Segundo o executivo, com uma base de empresas de diversos portes e segmentos, o banco agora busca complementar as ofertas ao cliente, por meio de uma tecnologia avançada. “Ao mesmo tempo, o produto também será uma ferramenta importante para a aquisição de novos clientes corporativos”, acrescenta.
O movimento consolida o esforço regulatório para ampliar o leque de opções para empresas e consumidores, mas também levanta questionamentos sobre os limites da competição. Afinal, as fronteiras para a expansão são delimitadas pelo volume de empresas dispostas a oferecer vale-refeição ou vale-alimentação para os cerca de 40 milhões de trabalhadores CLT no Brasil. Entre eles, 22 milhões recebem benefícios pelo Programa de Alimentação do Trabalhador, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
“Algumas barreiras de entrada impostas pelo modelo anterior ficam bastante minoradas em face da nova regulamentação”, comenta Storf, da Swap. “O mercado varia entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões transacionados anualmente e agora veremos uma briga maior por esse pool já existente”, prevê. (Fonte: Estadão)
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