BC reduz taxa de juros para 13,75% ao ano
Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) antes da eleição, o Banco Central (BC) cortou hoje a taxa básica de juros da economia brasileira de 14% para 13,75% ao ano. A nova redução se deve especialmente à queda recente de preços, que em agosto registrou deflação de 0,32% segundo o IPCA (índice que mede a inflação oficial do Brasil), acumulando 4,22% em 12 meses. (Por Wanderley Preite Sobrinho)O que você precisa saber
O corte da taxa básica de juros coloca a Selic em seu menor patamar desde março de 2025, quando esteve em 13,25% ao ano. Essa foi a quinta redução seguida de 0,25 ponto percentual decidida pelo Copom, órgão formado pelos diretores do Banco Central. A decisão repete os cortes realizados nas reuniões do colegiado em março, abril, junho e agosto.
A desaceleração da inflação oficial abriu espaço para o corte. O índice de preços (inflação cheia) e a média dos indicadores que retiram itens de valor muito instável (medidas subjacentes) perderam força e ficaram abaixo do teto do intervalo de tolerância da meta de inflação, que é 4,5%. "Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e a média das medidas subjacentes desaceleraram, situando-se abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta", diz o Copom.
"Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista."
Copom, em comunicado
A incerteza internacional exige cautela dos países em desenvolvimento, diz o Copom. A instabilidade nos preços de investimentos (ativos) e de matérias-primas básicas cotadas em dólar (commodities) gerada pela crise no Oriente Médio demanda postura defensiva de nações em desenvolvimento. "Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities", escreve o Comitê.
O comportamento das contas públicas federais continua sob vigilância. O acompanhamento do equilíbrio entre arrecadação e gastos do governo segue no radar do colegiado por afetar as condições de mercado e o custo da desinflação. "O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza", aponta o Copom.
O Banco Central evitou prometer novos cortes na Selic ao condicioná-los a novos sinais de queda no IPCA. O órgão não garantiu reduções automáticas e condicionou a extensão final desta temporada de reduções (ciclo de calibração) às informações que chegarem sobre a alta de preços. "Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta", diz o colegiado.
"O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta."
Copom, em comunicado
A redução da taxa Selic para 13,75% ao ano foi unânime. Todos os sete diretores votaram de forma consensual a favor da queda de 0,25 ponto percentual, sem qualquer divergência na diretoria. Votaram Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, e Rodrigo Alves Teixeira.
No sábado (12), o presidente Luiz Inácio Lula (PT) atribuiu aos juros o crescimento da dívida pública. "A grande dívida do Brasil é a taxa de juros que nós pagamos: R$ 1,3 trilhão em 12 meses", disse o presidente em comício em Curitiba.
"Para gerar emprego, a economia tem que crescer, e para a economia crescer, o governo tem que investir. E para o governo investir, é preciso parar com essa babaquice de fazer superávit, de ter controle fiscal."
Presidente Lula, em entrevista
Inflação fora da meta
O Comitê apresentou a projeção para a inflação acumulada em 2026: 5,2%. Para 2027, o Copom projeta IPCA de 3,9%. Para o primeiro trimestre de 2028, a projeção é de inflação a 3,2%.
O mercado financeiro espera que o corte de hoje não estimule a inflação. A aposta é que o IPCA termine 2026 em 4,90%. Essa projeção era maior na semana passada: 5%, segundo o Boletim Focus, relatório feito a partir das projeções de aproximadamente cem instituições consultadas pelo Banco Central.
A meta oficial da inflação é de 3%. Com permissão para oscilar 1,5 ponto percentual para mais ou menos, o objetivo será cumprido se o IPCA terminar o ano entre 1,5% e 4,5%.
A deflação de agosto ficou em 0,32%. A alta oficial de preços foi de 0,06% em julho e de 0,16% em junho. Nos 12 meses finalizados em agosto, o IPCA caiu para 4,22%, portanto abaixo do teto da meta (4,5%). O resultado do IPCA de setembro será divulgado em 9 de outubro, enquanto a prévia da inflação para o nono mês do ano sairá na sexta-feira da semana que vem (25).
O que diz o mercado?
Especialistas recomendam cautela para novos cortes. "A deflação de agosto foi amplificada por fatores temporários [redução na conta de luz] e por movimentos em commodities (petróleo, alimentos) que podem se reverter. Além disso, a inflação de 12 meses ainda está acima do centro da meta [que é 3% ao ano], e o Comitê tende a priorizar a convergência plena", avalia Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos.
O risco também pode ser eleitoral e climático. "Possíveis movimentos abruptos da taxa de câmbio em meio à proximidade do processo eleitoral somam-se à cautela necessária diante dos impactos potenciais do El Niño sobre os preços de alimentos a partir do 4º trimestre deste ano", o que pode pressionar a inflação, escreve em nota o Banco Daycoval.
Outro problema é o aumento da dívida pública, que já superou os 80% em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). "Sem um controle real dos gastos públicos, não vejo espaço para redução dos juros até o fim do ano. E com a inflação pressionada, o Banco Central não tem margem para iniciar cortes de curto prazo", diz Jeff Patzlaff, especialista em investimentos.
Fora do Brasil, a guerra no Irã pode gerar inflação. O Banco Daycoval pede cautela em razão da "conjuntura internacional adversa", como a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, e "pela renovada volatilidade nos preços do petróleo". O conflito elevou o preço do barril para além dos US$ 100, pressionando os preços em toda a cadeia.
Crédito caro
A Selic é a principal forma de conter a inflação. A elevação dos juros torna mais cara a tomada de empréstimo, inibindo o consumo e, consequentemente, a inflação. Por outro lado, seguidas altas podem enfraquecer o ritmo da economia, diminuindo a produção industrial e aumentando o desemprego.
Selic alta encarece principalmente a concessão de crédito e serviços financeiros. As taxas cobradas em empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários e de veículos, além de linhas de crédito para empresas, ficam caras.
Mas investir em renda fixa é bom negócio com a Selic alta. Investimentos remunerados pela taxa básica, como o Tesouro Selic, oferecem retorno maior, enquanto a poupança perde ainda mais competitividade. (Fonte: UOL)
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