Santander encerra ‘Era Mario Leão’ com missão difícil para Gilson Finkelsztain
Em um ambiente de juros nas alturas, banco registrou piora na inadimplência e precisou reforçar as provisões contra calotes (Por André Marinho e Altamiro Silva Junior (Broadcast)) - foto Paulinho Costa feebpr -| Resumo No segundo trimestre de 2026, o Santander Brasil, sob a gestão de Mario Leão, enfrentou desafios com alta inadimplência e reforço de provisões, resultando em um lucro líquido de R$ 3,014 bilhões, 17,6% menor que o ano anterior. O retorno sobre patrimônio caiu para 12,5%, longe da meta de 20%. Gilson Finkelsztain, novo presidente, ainda não influenciou os resultados. O banco adota uma postura mais seletiva no crédito, priorizando qualidade e disciplina, segundo o diretor financeiro Carlos Muñiz. |
O último trimestre em que Mario Leão esteve à frente do Santander Brasil sintetizou o ciclo desafiador que marcou boa parte da gestão do agora ex-CEO. Em um ambiente de juros nas alturas, o banco registrou piora na inadimplência e precisou reforçar as provisões contra calotes. Também seguiu seletivo no crédito, o que deixou menos espaço para o lucro, que veio bem abaixo do esperado pelo mercado, e afastou a rentabilidade ainda mais da tão almejada marca dos 20%.
Segundo o balanço divulgado nesta quarta-feira, 29, o Santander Brasil teve lucro líquido gerencial recorrente de R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre, uma queda de 17,6% em relação ao registrado em igual período de 2025. Na comparação com o primeiro trimestre, houve baixa de 20,4%. Os ativos totais somaram R$ 1,285 trilhão, alta de 5% em um ano. O patrimônio líquido, por sua vez, totalizou R$ 98 bilhões, crescimento de 6% em igual base comparativa.
O lucro gerencial veio 13% abaixo das projeções compiladas pelo Prévias Broadcast. Com isso, o retorno sobre o patrimônio anualizado (ROAE) despencou 3,8 pontos porcentuais na comparação anual, para 12,5%, agora bem mais distante da meta de superar 20% até 2028, estabelecida pela matriz.
O balanço é o primeiro anunciado desde que Gilson Finkelsztain, ex-presidente da B3, chegou à presidência do Santander Brasil, mas ainda não reflete a gestão do executivo, que assumiu no começo de julho. Os resultados, portanto, dão poucas pistas sobre o que esperar da condução de Finkelsztain. O que ficou claro, de qualquer forma, é o tamanho do desafio que o espera.
O desempenho abaixo do esperado pelo mercado no segundo trimestre é explicado, em parte, pelo aumento do colchão financeiro para se proteger contra calotes. As despesas líquidas com provisões (PDD) somaram R$ 7,654 bilhões no trimestre, um salto de 11,5% ante igual período de 2025 e acima do que muitos analistas projetavam. Segundo o banco, a pressão ficou mais concentrada nas carteiras de empresas, agronegócio e segmentos massificados da pessoa física. Também houve reforço de provisões para “casos do atacado”, disse o Santander Brasil, sem especificar nomes.
O banco também deu sequência ao processo que vem chamando de “de-risking” do crédito, com aumento na exposição a linhas consideradas seguras e com garantias, em detrimento de segmentos mais arriscados, como a baixa renda. Como efeito, a carteira de pessoa física ficou praticamente estável, enquanto a de pessoa jurídica avançou. O financiamento ao consumo também seguiu em destaque, sobretudo operações de veículos.
Com o menor apetite por algumas das linhas mais rentáveis, a margem financeira não decolou, à medida que o spread menor pressionou as receitas com juros em operações com clientes. A margem com mercado teve uma ligeira melhora, mas seguiu em território negativo, diante dos efeitos dos juros elevados sobre a tesouraria.
A base de receitas mais pressionada gerou ainda um revés no índice de eficiência, que avançou a 39,3% - neste caso, quanto menor é o indicador, mais eficiente é a operação. O aumento anual de 2,6% nas despesas totais veio abaixo da inflação no período, mas o banco teve de ampliar os investimentos em tecnologia, enquanto as receitas com comissões recuaram na passagem trimestral.
Cenário mais desafiador
Em entrevista pós-balanço, o diretor financeiro do Santander, Carlos Muñiz, disse que o resultado do segundo trimestre, com queda anual do lucro e do retorno, reflete o cenário macro mais desafiador, especialmente pelo aumento do custo de crédito.
O executivo disse que o banco está rebalanceando o mix de produtos de clientes, buscando uma melhor relação entre risco e retorno. “Esse movimento pode gerar impacto de curto prazo na receita, mas é fundamental para construir uma operação mais equilibrada, resiliente e previsível”, disse.
“Nosso foco é crescer com qualidade e sustentar rentabilidade resistente”, disse o executivo. “Seguimos avançando no crédito de forma seletiva.” Segundo ele, a prioridade do banco é “qualidade e disciplina”.
Muñiz informou também que o banco adotou postura mais restritiva nas renegociações, em meio ao aumento do custo do crédito. “A disciplina em renegociações pode gerar pressão de curto prazo”, disse na teleconferência.
Ainda sobre o crédito, Muñiz ressaltou que “casos específicos no atacado” e mudanças em regras de baixas contábeis afetaram as provisões. O executivo falou em um impacto de R$ 700 milhões.
O banco, reafirmou o executivo, segue avançando a carteira de crédito de forma seletiva. Esse maior conservadorismo acabou tendo impacto na receita com serviços, que o banco chama de comissões. “Estamos fazendo escolhas duras, gostaríamos de ver as receitas bombando”, disse. (Fonte: Estadão)
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