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16/07/2026

US$ 11 bilhões em 30 dias: a Copa do Mundo é a empresa mais lucrativa do planeta que não tem dono

Como a Fifa transformou futebol em máquina de dinheiro e o que qualquer gestor pode aprender com esse modelo (Por Por Camila Farani) - imagem gerada por IA -

A empresa está registrada como entidade sem fins lucrativos na Suíça e vai faturar entre US$ 9 bilhões e US$ 11 bilhões neste mês de julho. Ela não fabrica produto. Não tem atletas contratados. Não corre risco esportivo, talvez em alguns momentos, quem sabe. Não perde dinheiro quando o Brasil é eliminado. Não ganha a mais quando a final tem audiência recorde. A receita estava contratada antes do primeiro apito. A empresa se chama Fifa. E o modelo de negócio que ela construiu nos últimos 30 anos é o estudo de caso mais completo sobre como transformar um ativo escasso em máquina de receita previsível que o esporte global já produziu.

A Fifa controla o ativo mais valioso do futebol mundial: a Copa do Mundo ou a atenção do mundo naqueles dias. Pouquíssimos eventos no mundo conseguem reunir tanta audiência ao mesmo tempo, em tantos países diferentes.

A Copa do Mundo deixou de ser apenas um torneio esportivo e se tornou um evento global de mídia, com toda uma gigantesca operação comercial envolvendo patrocinadores, licenciamento, hospitalidade, ingressos, experiências e produtos digitais.

O ativo que a Fifa controla não é o futebol. É a atenção global simultânea de 6 bilhões de pessoas durante 39 dias. Isso não se replica. Não se substitui. Não tem concorrente. Essa escassez absoluta é o fundamento de toda a precificação.

A Fifa projeta arrecadar US$ 8,9 bilhões apenas com o torneio de 2026, valor que representa grande parte dos US$ 13 bilhões previstos para todo o ciclo entre 2023 e 2026, segundo o Financial Times. O crescimento é de 72% em relação ao ciclo encerrado na Copa do Catar em 2022, e mais que o dobro do registrado entre 2015 e 2018. Setenta e dois por cento de crescimento em quatro anos numa organização que não mudou o produto central.

O futebol é o mesmo. Os 22 jogadores em campo são os mesmos. O que mudou foi a capacidade da Fifa de precificar o acesso a esse produto de formas cada vez mais sofisticadas. Preço dinâmico para ingresso. Mercado de revenda oficial com comissão bilateral. Hospitalidade VIP com ticket médio que rivaliza com private banking. Licenciamento digital incluindo eSports. Cada nova camada de monetização foi adicionada sobre o mesmo ativo de base.

Numa reunião recente com um sócio de uma gestora de capital privado que ele possui, a gente estava avaliando investimento em direitos esportivos, a pergunta central que trouxe foi a seguinte: o que torna um ativo esportivo defensável no longo prazo?

A resposta que dei é a que a Fifa demonstra empiricamente. Três condições simultâneas: escassez genuína do evento, audiência que não pode ser substituída por produto equivalente e modelo de receita que não depende de resultado específico.

A Copa tem as três. Liga regional, campeonato local, torneio de clube não têm as três ao mesmo tempo. Por isso a Fifa fatura US$ 11 bilhões, e a maioria das outras organizações esportivas fatura uma fração disso.

A Vivo opera no Brasil com lógica parecida em escala diferente. A empresa não vende apenas minutos de voz ou gigabytes de dados. Vende o acesso à infraestrutura que conecta tudo. O produto não é a ligação. É a capacidade de fazer qualquer ligação a qualquer momento.

Essa camada de infraestrutura cria dependência estrutural que nenhum concorrente pode replicar rapidamente. A Fifa faz isso com o futebol: criou a infraestrutura de direitos, de marca e de distribuição que transforma o jogo em commodity para quem quer transmitir, patrocinar ou assistir.

A Fifa está registrada na Suíça como associação, o que a obriga a gastar suas reservas no desenvolvimento do esporte e, na prática, isenta a entidade do imposto federal sobre a receita da Copa.

As reservas saltaram de US$ 1,6 bilhão em 2021 para quase US$ 4 bilhões ao fim de 2022. O pacote salarial do presidente Gianni Infantino chegou a um acordo de US$ 4,6 milhões em 2024, um aumento de 33%. Entidade sem fins lucrativos com reservas de US$ 4 bilhões e presidente com pacote de US$ 4,6 milhões. A consistência entre a definição jurídica e a realidade operacional é, no mínimo, criativa.

O que a Fifa demonstra é que a forma jurídica de uma organização e o modelo econômico que ela opera são coisas completamente diferentes. Qualquer advogado tributário confirma. Qualquer gestor que paga imposto sobre lucro sente a diferença na prática.

O dado que encerra a análise com a precisão que o assunto merece vem do ciclo seguinte. Para o ciclo de 2027 a 2030, a projeção é de receitas de US$ 14 bilhões, sendo os direitos de transmissão a principal fonte de faturamento. A lógica é clara: quanto mais o futebol cresce globalmente, mais valiosos se tornam os ativos comerciais da própria Fifa.

Ela investe no desenvolvimento do futebol ao redor do mundo não por filantropia. Porque futebol mais popular em mais países significa mais audiência, que significa mais valor nos contratos de transmissão, que significa mais faturamento no próximo ciclo.

É o flywheel mais bem executado do esporte global: desenvolve o produto para valorizar o ativo que controla. Qualquer empresa que entender esse princípio e aplicar na própria operação tem a fórmula que essa gigante levou décadas para refinar. (Fonte: Estadão)

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